Ago, 2026

A inteligência artificial escreve por si, só que se nota.

O texto sai correto, rápido e barato. E completamente esquecível. Aqui fica o que se delega e o que nunca se deve delegar.

Vamos começar pela parte honesta: nós usamos inteligência artificial todos os dias. Para investigação, para estruturar, para gerar variações, para acelerar o que é repetitivo. Seria estranho uma agência que pensa sobre estas coisas fingir o contrário.

O que vale a pena discutir não é se se usa. É o que acontece quando se usa mal.

E o que acontece quando se usa mal é isto: o texto fica correto. Bem construído, sem erros, organizado. E ninguém se lembra dele cinco minutos depois.

Porque é que a média não serve a nenhuma marca

Um modelo de linguagem foi treinado para produzir a resposta mais provável. É literalmente a sua função. Dado um princípio de frase, escolhe a continuação mais esperada.

Ora, uma marca serve exatamente para o contrário. Existe para ser a resposta que não era esperada naquele mercado, é, assim, essa distância que faz alguém lembrar-se de si em vez do concorrente.

Quando se pede a uma ferramenta para escrever "um texto sobre a importância da confiança no setor da construção", ela devolve o texto médio do setor, que é o texto que todos os seus concorrentes também vão receber, porque estão a fazer o mesmo pedido à mesma ferramenta.

O resultado é um mercado inteiro a soar igual, e todos a pagar por isso.

Os sinais que o leitor deteta sem saber nomear

Em português europeu, o texto automático tem marcas reconhecíveis. O leitor pode não as saber identificar, mas sente que está a ler uma coisa produzida em série. Vale a pena conhecê-las para as poder eliminar.

O travessão usado como pausa dramática.

Não é hábito de escrita empresarial portuguesa, é importado do inglês. Quando aparece três vezes na mesma página, o texto denuncia-se sozinho.

As estruturas de três.

Tudo aparece em conjuntos de três: três adjetivos, três benefícios, três exemplos. É agradável ao ouvido e, repetido, torna-se maquinal.

A abertura que contextualiza o óbvio.

Frases do género "num mundo cada vez mais competitivo" ou "atualmente, as empresas enfrentam desafios crescentes". Ninguém escreve assim quando tem alguma coisa concreta para dizer. Escreve-se assim quando é preciso aquecer motores.

A equidistância.

O texto apresenta os dois lados, não toma posição, e termina a dizer que o equilíbrio é importante. É seguro e é inútil. Uma marca que não toma posição não é lembrada.

O elogio ao leitor sem substância.

"Sabemos que a sua empresa é única." Não sabe. Ninguém sabe. E o leitor percebe.

O protocolo: o que se delega e o que não se delega

Isto é o que pode aplicar já, hoje, com a ferramenta que estiver a usar.

Delegue sem hesitar:

  • Estruturar um texto que você já sabe o que quer dizer
  • Gerar dez versões de um título para escolher uma
  • Rever ortografia, coerência e repetições
  • Resumir documentos longos para consulta interna
  • Adaptar um mesmo conteúdo a formatos diferentes
  • Trabalho de investigação preliminar, sempre com verificação

Nunca delegue:

  • A tese. Aquilo que a marca defende e que os concorrentes não defendem.
  • Os exemplos concretos. Nomes, números, casos, situações reais. A ferramenta não os tem e, se lhos pedir, inventa.
  • A primeira e a última frase. São as que ficam, e são as que a média estraga.
  • Opiniões que impliquem risco. Se ninguém pode discordar do que escreveu, não escreveu nada.
  • O tom de voz, se ainda não o tiver definido por escrito. Sem regras, a ferramenta usa as dela.

A regra prática de dois minutos

Antes de publicar qualquer texto produzido com ajuda de IA, faça uma pergunta: um concorrente meu podia publicar isto tal e qual, mudando apenas o nome?

Se a resposta for sim, o texto não é seu. É do setor. Reescreva as partes que o tornam intermutável, normalmente a abertura e as conclusões, e acrescente uma coisa que só a sua empresa sabe.

Dois minutos de trabalho que transformam um texto genérico num texto que alguém pode lembrar.

O que retirar daqui

A inteligência artificial resolve o custo de produção. Não resolve o custo de ser irrelevante, que é muito mais caro e não aparece em fatura nenhuma.

Use-a para escrever mais depressa aquilo que já decidiu dizer. Não a use para decidir o que dizer.